De Mãos Dadas com a Ancestralidade: A Infância da Criança Indígena
- Raiane Oliveira
- 28 de ago. de 2025
- 7 min de leitura
Quando estamos abertos a falar sobre a infância, um dos primeiros pensamentos que surgem nos remetem à nossa própria vivência. Lembramos dessa época de forma saudosa e agradável, com momentos que vão desde correr descalços na rua perto de casa até um dia chuvoso em que ficamos no sofá da sala assistindo desenhos animados em um sábado.
Ao abordarmos a infância de crianças indígenas, esse sentimento está muito presente. As relações construídas por elas durante o crescimento são intensas, tanto com o ambiente natural quanto com o seio coletivo da comunidade. É importante salientar que, ao falarmos sobre a infância indígena, estamos tratando de uma área bastante complexa, com um vasto contexto cultural e social. Cada comunidade possui sua própria cultura, crenças, costumes, modos de viver e de perceber o mundo ao seu redor.
No caso do Brasil, abriga-se uma das maiores diversidades socioculturais indígenas do mundo. Segundo o Censo Demográfico, o país possui 305 etnias reconhecidas e mais de 274 línguas vivas. Essa extensa pluralidade se expressa nas formas de educar, cuidar e brincar que varia de povo para povo.
Neste post, abordaremos a importância das brincadeiras, dos conhecimentos ancestrais transmitidos aos mais novos, o papel dos mais velhos no fortalecimento da identidade da criança e os vínculos excepcionais criados a partir dessas relações, articulando esses aspectos com ilustrações etnográficas sobre os povos originários.
Brincadeiras e aprendizados: a transmissão de saberes por meio do brincar
O ato de brincar está profundamente ligado ao modo de viver de cada comunidade. Entre as crianças indígenas, essas práticas refletem os valores do coletivo e têm uma finalidade comum: preservar tradições, transmitir saberes por meio da oralidade, da convivência e do corpo, além de reforçar o vínculo inesgotável com a natureza. As comunidades indígenas unem a diversão com às práticas do cotidiano, ensinando o valor do vínculo coletivo, da escuta e do respeito no seio social que as cerca.
O ativista indígena e professor Daniel Munduruku fala sobre como a liberdade de ser criança é importante para o desenvolvimento delas como sujeitos individuais e coletivos: “Uma das coisas que certamente faz parte da educação das crianças indígenas é a possibilidade delas serem, sobretudo, crianças. Ela é incitada por meio de jogos e brincadeiras, contações de histórias ou jogos de roda. O jogo coletivo educa o corpo, as histórias educam o espírito. Esse tipo de atividade faz com que as crianças aprendam a ser um sujeito individual em uma comunidade”.
A ação de brincar nas comunidades indígenas surge de forma espontânea, sempre incorporando os elementos naturais à prática. Esse ato impulsiona a memória coletiva, transmitida pela observação dos mais velhos. Enquanto para crianças que vivem em ambientes urbanos, paisagens como rios ou grandes matas são raras, para as crianças indígenas esses espaços representam incríveis oportunidades de aprendizado, convivência com os animais e descobertas – um verdadeiro mundo encantado.
É nesses espaços que ocorrem as brincadeiras de caça simbólica e os jogos com elementos encontrados no ambiente natural, como sementes, barro, pedras ou folhas, além das corridas entre as árvores – práticas que movimentam e ativam o corpo, ao mesmo tempo em que aprimoram a escuta, a oralidade, o vínculo com os ancestrais e o respeito pela natureza.
Essas práticas, além de serem momentos divertidos essenciais para o desenvolvimento da criança, carregam em si fontes de autonomia, fomentando a resistência física, a espiritualidade e o sentimento de pertencimento à comunidade e ao ambiente.
Guardiões do tempo: tradições que atravessam gerações
Nas comunidades indígenas, os mais velhos desempenham um papel fundamental: são responsáveis por transmitir os elementos e saberes culturais de seu povo às novas gerações. Os avós, anciãos e anciãs são reconhecidos como os mestres do saber, verdadeiros símbolos da sobrevivência e resistência cultural da comunidade.
Em vista disso, os mais velhos tornam-se figuras fundamentais na infância – especialmente na primeira infância, fase em que a criança estabelece vínculos afetivos e começa a assimilar os aspectos culturais estruturantes.
É a partir deles que as histórias, cantos, mitos, gestos e valores são transmitidos, oferecendo às crianças referências de continuidade e pertencimento cultural. Além disso, ao desenvolverem a escuta atenta e a interação intergeracional, o aprendizado coletivo se manifesta na pedagogia indígena, e o ato de brincar torna-se uma prática de preservação.
A relação próxima que os mais velhos cultivam com os mais novos fortalece os laços afetivos da comunidade, ao mesmo tempo em que reconhecem nas crianças não apenas o futuro do povo, mas também a presença viva de sua ancestralidade. Podemos perceber como o ato de brincar vai muito além do lúdico: ele permeia os passos dos que vieram antes e pavimenta o caminho para os que ainda virão. Essa relação da criança com a comunidade é expressa na fala do líder indígena e filósofo brasileiro Ailton Krenak: “Essa experiência real de conviver com um mundo de diferentes idades, principalmente um mundo com os adultos e famílias por perto, é considerado uma primeira orientação afetiva e emocional para a criança”.
O brincar como processo formativo do indivíduo: relatos etnográficos da Antropologia da Criança
Processo de educação da criança Chiquitana (comunidade localizada na fronteira entre o Brasil e a Bolívia)
Por meio de um estudo etnográfico realizado na comunidade Chiquitano pela pesquisadora Beleni Saléte Grando, sobre os processos de educação das crianças, foi identificado que as crianças menores são vistas como as mais próximas do divino. Esse aspecto pode ser correlacionado com o papel dos mais velhos, reconhecidos pela sabedoria que carregam: essas crianças assumem um papel essencial no processo ritualístico mais significativo do grupo, o chamado Curussé. Sob a orientação dos mais velhos, elas assumem a produção da chicha, uma bebida servida a todos os membros da comunidade durante o ritual, independentemente da idade.
No decorrer do Curussé, foi observada uma relação entre adultos e crianças que não se revela nos dias comuns. Durante o processo, a criança tinha autorização para jogar tinta ou barro sobre o adulto, em uma brincadeira que coloca todos os indivíduos na mesma base hierárquica. É possível perceber que as práticas lúdicas não se opõem aos processos sérios da comunidade Chiquitano; ao contrário, fazem parte de uma mesma ação, na qual a mediação e as trocas entre os participantes garantem a transmissão dos conhecimentos e o fortalecimento das identidades coletivas e individuais.
Atividades cotidianas das crianças Galibi-Marworno (comunidade habitante das vastas savanas e campos alagados do norte do Amapá)
Em uma pesquisa de campo realizada na comunidade Galibi-Marworno, a pesquisadora Camila Codonho revela que é durante as atividades cotidianas que as crianças da comunidade aprendem noções do entorno, especialmente ao interagir com primos e membros de outros grupos familiares.
Ao se relacionarem com crianças de outros grupos, elas têm mais oportunidades de aprender diferentes formas de agir, pensar e se relacionar, expandindo a base de aprendizado para além das pessoas que as cercam no seio familiar imediato. Trata-se de uma troca de conhecimento horizontal, na qual as crianças ensinam e aprendem umas com as outras, e não apenas recebem os saberes e informações dos adultos.
As crianças não são apenas receptores passivos de conhecimentos. Elas também podem escolher o que querem aprender e ensinar suas habilidades e saberes a outras crianças, participando ativamente da transmissão de conhecimento do grupo.
Aprendizagem como uma iniciativa da criança Xavante (TI Sangradouro - localizada no estado de Mato Grosso)
Durante um trabalho de campo realizado em uma comunidade Xavante, a pesquisadora Beleni Grando narra uma situação do cotidiano entre familiares e crianças. Enquanto uma mulher ralava a mandioca, sua neta mais nova decidiu oferecer ajuda para ralar também, querendo demonstrar suas habilidades aos visitantes que acompanhavam suas rotinas. Logo após o término, uma menina um pouco mais velha decidiu fazer a mesma ação, e sem dizer nada, a avó e a mãe das meninas apenas observaram, permitindo que a troca fosse realizada. Ao ralar a mandioca, a outra menina acabou machucando um pouco o dedo, mas saiu sem qualquer manifestação de choro ou represália por parte das mulheres adultas, assim como não houve zombaria por parte das crianças menores presentes no local.
Assim que a avó terminou seu trabalho, as crianças mais novas e as mais velhas se ofereceram para ajudá-la a levar os utensílios utilizados para dentro de casa, dividindo a tarefa entre si. Essa divisão era feita de acordo com o interesse e a habilidade de cada criança, e ocorria sem qualquer orientação, contando apenas com o olhar atento das mulheres adultas presentes.
Esse cenário, em particular, apresenta uma estratégia bem comum das comunidades indígenas, que aperfeiçoa as capacidades corporais das crianças, permitindo que elas aprendam de diversas maneiras. Os sentidos são utilizados para o aprendizado, permitindo que observem determinada ação, reflitam sobre ela e compreendam o que deve ser feito, sem a intervenção de um adulto. Ou seja, as crianças aprendem ao acompanhar outras crianças ou adultos nas atividades corriqueiras, seja no seio familiar, no rio ou ao brincar sob a terra molhada, entre outras situações.
Considerações finais
Ao reconhecermos e valorizarmos os atos de brincar e aprender das crianças indígenas, estamos defendendo a pluralidade dos direitos da infância. Assim como é igualmente importante dar visibilidade às formas de vivência de cada comunidade em sua completude – seja na maneira de educar, cuidar ou conviver em coletividade.
O fortalecimento dos direitos das infâncias dentro de múltiplas culturas e vivências – especialmente nos primeiros anos de vida – está diretamente ligado ao respeito pela nossa diversidade e pela ancestralidade de todas as comunidades. O reconhecimento e a valorização dos modos de vida dos povos originários contribuem para que as crianças cresçam em um ambiente seguro, onde possam continuar aprendendo, brincando e pertencendo à sua coletividade.
Referências Bibliográficas:
ZOIA, A.; PERIPOLLI, O. J. Infância indígena: relações educativas nos diversos contextos. Revista de Educação Pública, v. 22, p. 421-436, 2013.
Ancestralidade do brincar: o valor das brincadeiras para as primeiras infâncias indígenas - Cuidar de cada criança é cuidar do país inteiro. Disponível em: <https://fundacaomariacecilia.org.br/noticias/ancestralidade-do-brincar-o-valor-das-brincadeiras-para-as-primeiras-infancias-indigenas/> Acesso em: 10 de agosto de 2025.
HOSHINO, C. O que podemos aprender com a infância das crianças indígenas? Disponível em: <https://lunetas.com.br/o-que-podemos-aprender-com-a-infancia-das-criancas-indigenas/> Acesso em: 10 de agosto de 2025.
GRANDO, B. S. Infância, brincadeiras e brinquedos em comunidades indígenas brasileiras. Revistaleph, v. 28, p. 97-113, 2014.



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